Vida no Interior

Vou contar sobre a vida no interior. Aos poucos. Aos domingos. Aos grãos de arroz. Porque há muito para se contar e, apesar de tanto tempo, sempre descubro algo novo. Mesmo quando estou fora continuo à procura. Quero conhecer o interior da mata. Quero os passeios rurais.

Não há nada mais intrínseco em mim do que uma paisagem de interior.

Interior não igual à época dos meus avós, mas ainda assim com seu charme. Interior não igual em todo país, nem em toda cidade. Interior que não são campos de flores, nem agrestes sertanejos, mas fazendas de cana e milho salpicados de cidade e renovação. Interior onde nasci, cresci e do qual nunca sai.

Quando eu ainda não sabia que chamavam de interior o lugar que eu nasci, havia um pé de limão no quintal. Todas as casas tinham pequenas hortas e árvores frutíferas. Eu cresci brincando em volta de uma delas e, talvez por conta disso, adoro as cítricas e me emociono sempre com a história de Meu Pé de Laranja Lima.

O clichê onde todo mundo conhece todo mundo não é válido para toda cidade de interior, até mesmo porque lembro que meus vizinhos viviam se mudando. Já o clichê todo mundo sabe da vida de todo mundo pode ser uma inconveniente verdade e, possivelmente, a mais irritante.

As casas eram feitas de alvenaria com tijolos à vista, decoradas com roseiras, pés de couve, moitas de hortelã e chumaços de salsinha. Como criança curiosa cresci comendo trevos, brincando de fazer comida com barro. Os brinquedos mais marcantes da minha infância são: um carrinho-de-boi que eu comprei na feira com meus pais, e um boneco cabeça-de-limão que eu chamava carinhosamente por Liminho.

Andar descalça, ficar suja, brincar sozinha inventando histórias, pular corda, comer pastel na feira. São infinitas as lembranças da infância e não há nenhuma delas que não esteja arraigada ao interior.

Caso morasse em alguma outra cidade, em algum outro país, acabaria sendo interior. Sabe, tudo bem conhecer os centros urbanos, passear nos centros urbanos, estudar nos centros urbanos. Mas eu viveria num centro urbano? As chances são mínimas.

Nunca andei de metrô. Quando conto isso pra alguém que já andou (ou já morou em São Paulo) sempre me dizem “você não está perdendo nada”. Mas já pensou quando eu andar? Vai ser como andar de trem pela primeira vez.

Havia trem na minha cidade. Uma vez passeei com a minha vó de Cerquilho a Boituva de trem. Hoje não existe mais, só trem de carga. Na cidade, de madrugada, quando não há mais nenhum ruído é possível ouvir o apito do trem.

Se eu sussurrar a palavra interior e fechar os olhos a primeira imagem que vem à tona será de uma árvore imponente e solitária no meio do pasto, a cerquinha branca contornando, as plantações de cana-de-açúcar a perder de vista.

Escrevo essas lembranças sob a vibração do voo de um marimbondo, as cigarras em plena vicissitude, o céu azul quase sem nuvem. O mesmo céu de quase toda cidade, mas que eu só percebo aqui no interior.

🌸 Conteúdo feito com carinho por Patrícia Leardine.

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